Muito antes de existirem computadores, redes neurais ou qualquer promessa de máquinas pensantes, um filósofo alemão já havia antecipado uma questão que a inteligência artificial viria a reabrir dois séculos depois. Immanuel Kant viveu entre 1724 e 1804 na cidade de Königsberg, da qual praticamente nunca saiu. Sua rotina era tão precisa que, segundo relatos da época, ele fazia a mesma caminhada todos os dias exatamente no mesmo horário, a ponto de os moradores locais usarem sua passagem como referência para saber que horas eram.
Foi dessa vida disciplinada que Kant desenvolveu uma das teses centrais de sua filosofia: a de que o conhecimento não resulta apenas da observação do mundo, mas também da forma como a mente organiza aquilo que observa. Espaço, tempo, causa e efeito, para ele, não são propriedades que existem prontas na realidade à espera de serem descobertas, mas estruturas que a própria mente utiliza para tornar qualquer experiência inteligível. Em outras palavras, não conhecemos o mundo exatamente como ele é, conhecemos o mundo tal como nossa capacidade de compreensão permite que ele apareça para nós.
Dessa tese nasce a distinção que atravessa toda a obra de Kant: de um lado, o fenômeno, que é o mundo tal como aparece para nós; do outro, a coisa em si, que é o mundo tal como é, independentemente de qualquer observador. Kant foi categórico ao afirmar que a coisa em si permanece, e permanecerá, fora do nosso alcance. Mas há um desdobramento dessa filosofia que costuma passar despercebido, e que se torna especialmente relevante diante da era da inteligência artificial: para que exista conhecimento, é preciso que exista também um sujeito capaz de se reconhecer como tal, um "eu penso" que acompanha e organiza toda experiência. Esse reconhecimento de si mesmo tem uma estrutura particular. Para se pensar, a mente precisa se colocar, ainda que por um instante, na posição de quem observa a si própria de fora, como se estivesse dividida entre observador e observado. Julgar-se, avaliar-se, corrigir-se, tudo isso exige assumir temporariamente o ponto de vista de um outro, mesmo que esse outro não exista fisicamente diante de nós.
É exatamente essa cisão que a inteligência artificial parece reproduzir, ainda que por vias completamente diferentes. Sistemas de IA cada vez mais autônomos são projetados não apenas para processar dados externos, mas para monitorar, avaliar e ajustar o próprio funcionamento, como se simulassem um olhar externo sobre si mesmos; isso já é suficiente para perguntar: se uma máquina passa a se autoavaliar, ela está, de alguma forma, replicando esse movimento entre sujeito e objeto que Kant identificou como condição de todo conhecimento? Ou está apenas simulando os sinais externos desse processo, sem experimentar nada daquilo que, para nós, é o próprio ato de se saber existindo?
No fim das contas, a questão mais desconcertante do futuro talvez não seja saber se a inteligência artificial será capaz de compreender a realidade em que vivemos. Talvez seja outra, mais incômoda: depois de séculos de ciência e de filosofia, e agora também de algoritmos cada vez mais sofisticados, seremos nós capazes de provar que compreendemos a nossa própria realidade?